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Mulheres na Ciência

Mulheres na ciência: qual é o impacto das startups durante a pandemia

Hoje o Brasil possui mais de 600 startups com soluções focadas em saúde, as famosas healthtechs. Um dado preocupante é que apenas 4% dessas startups têm seu quadro societário composto apenas por mulheres. Enquanto 62% desses negócios têm apenas homens como sócios. Hoje (11/02), no dia internacional das mulheres na ciência, discutir esse tema se […]

11 de fevereiro de 2021 8 min de leitura
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Artigo atualizado 11 de fevereiro de 2021

Hoje o Brasil possui mais de 600 startups com soluções focadas em saúde, as famosas healthtechs. Um dado preocupante é que apenas 4% dessas startups têm seu quadro societário composto apenas por mulheres. Enquanto 62% desses negócios têm apenas homens como sócios. Hoje (11/02), no dia internacional das mulheres na ciência, discutir esse tema se torna essencial para nós do Distrito que acompanhamos a trajetória de tantas mulheres que empreendem no Brasil.

No gráfico abaixo, veja os dados levantados e divulgados no Inside Healthtech Report, estudo mensal que tem como objetivo ser a maior fonte de informação do ecossistema de inovação na área da saúde no Brasil.

Para compreender melhor esse cenário e a representatividade das mulheres no setor da saúde e na ciência brasileira, entrevistamos 4 empreendedoras que participam do programa Distrito For Startups para compartilharem um pouco das suas visões e experiências.

Jackeline Soares Beltran, fundadora do Medical Peptide

A Medical Peptide é uma dessas startups que fogem da regra e são compostas por duas sócias, as pesquisadoras Carolina Dias e Jackeline Beltran. Fundada em 2019, a healthtech tem um papel importante no ecossistema de inovação: promover a Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) de produtos inovadores na área da saúde incentivando e impulsionando projetos científicos ao redor do país. 

Para as fundadoras, qualquer startup de base científica, já inicia com inúmeras dificuldades, principalmente no que tange aos aspectos regulatórios que têm relação com a comprovação da eficácia e segurança dos estudos. “O papel da mulher na ciência é igualmente relevante ao do homem. Pela prática, deve-se considerar que muitas mulheres detêm uma sobrecarga de atividades, sendo ela na pesquisa, como também em casa com sua família”, refletem.

As duas ainda ressaltam os diversos perfis de mulheres cientistas na área da saúde. “Conhecemos muitas cientistas brilhantes, que cuidam dos seus lares e também das suas carreiras acadêmicas e uma atividade não se sobrepõe a outra. Em muitos casos, observamos mulheres que são mais pragmáticas e objetivas na condução e desenvolvimento de suas linhas de pesquisas, pois a administração do seu tempo precisa ser cuidadosa”, afirmam.

Confira a entrevista na íntegra com a Jackeline Soares Beltran e a Carolina Dias

Como surgiu a ideia da startup?

A ideia nasceu no final do mestrado. O que passou pela mente naquele período foi: por que não podemos levar o que fazemos dentro do laboratório para as pessoas? A ciência básica é tão relevante quanto a ciência aplicada, mas no Brasil ainda temos muita dificuldade para tornar a nossa pesquisa em produtos ou serviços. Após passarmos por um programa de pré-aceleração do Emerge, estávamos prontas para abrir a nossa startup, a Medical.

 Qual foi o impacto da pandemia no seu negócio?

A pandemia nos afetou, mas permanecemos firmes! Foi um tipo de experiência que, certamente, teríamos depois de muitos anos. Revalidamos o mercado, realinhamos a nossa equipe, realinhamos as nossas estratégias e estamos felizes por poder cuidar dos nossos clientes. Nosso diferencial é que cuidamos dos projetos que recebemos, com o mesmo amor que temos pela nossa própria empresa e projetos internos, pois sabemos que as inovações podem salvar e mudar para sempre a vida das pessoas.

Honestamente, nunca vimos um momento como este na história, e sim, acreditamos que esta situação prestigiou diversos cientistas que estão nos laboratórios, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, desconhecidos muitas vezes, mas que estão dando a vida por suas pesquisas.

Acreditamos que este momento é crucial e um divisor de águas, principalmente para o Brasil. Sempre fomos otimistas dentro deste cenário e cremos que em poucos anos a inovação se dará de outro modo em qualquer área profissional. É fácil perceber como o mundo já mudou! O time da Medical Peptide®, desenvolve diversas ações para promover a ciência e a inovação, também é uma forma de como devolvemos conhecimento para a sociedade. Um agradecimento especial ao Distrito, que nunca mediu esforços para promover a ciência.

Qual é a diferença entre o que a universidade ensina e a realidade do mercado de saúde em geral?

Quando ministramos nossas palestras nas Universidades, sempre observamos dois perfis: 

  • Aquele que deseja empreender, mas não tem uma ideia e também não sabe por onde começar.
  • Existem aqueles que têm muitas ideias, naturalmente são muito inovadores. Estes precisam ser guiados, pois é possível empreender de forma mais assertiva.

A verdade é que nem todos vão empreender, mas todos nós precisamos inovar! O Brasil é um país que tem muitos desafios e isto gera boas oportunidades. No nosso caso, a USP tem muitas iniciativas com relação ao empreendedorismo e procuramos em nossa jornada acadêmica, aproveitar cada oportunidade e somos gratas por isto e pelas portas que a Universidade nos abriu, inclusive fora do Brasil.

Luana Aps, sócia da ImunoTera

A história da startup ImunoTera também é uma exceção quando olhamos para o contexto das healthtechs  brasileiras, que em sua maioria são fundadas por homens. No entanto, contrariando as estatísticas, a startup foi fundada por três sócias. Luana Aps conta um pouco sobre o desafio de empreender, ser mãe e também atuar na área de pesquisa. 

“Eu tenho duas filhas, uma de 4 anos e uma de 8. Já a minha sócia tem uma pequena de um ano e meio. A gente acaba se desdobrando. Eu pessoalmente com as minhas duas aqui e aula online. Então o começo da pandemia foi bem sofrido. Eu ficava com elas durante o dia, tendo aula online, estudando com elas e fazendo todas as atividades. Só conseguia trabalhar de madrugada. Então, eu fazia o terceiro turno que é quando eu trabalhava para a empresa: eu começava umas 22h e acabava às 2h da manhã. Eu colocava elas para dormir e depois trabalhava do computador”, comenta.

A ImunoTera desenvolveu um tratamento inovador contra doenças associadas ao vírus do papiloma humano (HPV), como o câncer de colo de útero, com potencial para substituir os tratamentos convencionais. O tratamento oferecido pela ImunoTera, denominado de “Terah-7”, é baseado em um produto biológico (proteína recombinante) que pode ser aplicado na forma de injeção pela via subcutânea.

Distrito for Startups

Confira abaixo a entrevista na íntegra com a Luana Aps

Qual a relação da ImunoTera com a USP? Como vocês atuam no combate a covid-19?

Nós temos uma relação de colaboração com a USP,  particularmente com o Instituto de Ciências Biomédicas. Durante a pandemia, não foi possível realizar experimentos focados em outros produtos da ImunoTera. Só era possível realizar experimentos focados no combate a covid-19. Nesse sentido, foi uma oportunidade para nós, porque a ImunoTera desenvolveu, em parceria com a USP, uma vacina que pode ser tanto preventiva quanto terapêutica e é específica para a população brasileira. Estamos solicitando, inclusive, um pedido de patente.

Vocês ganharam o Prêmio Mulheres Inovadoras, conte como foi essa experiência?

Assim que começou a pandemia, nós já tínhamos nos inscrito no Prêmio Mulheres Inovadoras. Durante a pandemia fizemos todo o processo de aceleração online, que antes era presencial. Fomos uma das vencedoras do prêmio e recebemos um recurso de  R$ 100 mil em dinheiro.

Apesar do projeto ficar um pouco atrasado porque a gente não podia fazer experimentos (devido à situação da covid-19), progredimos nesse sentido de divulgação científica. A repercussão foi alta e fizemos diversas entrevistas. Realizamos diversas lives, participações em webinar, em seminário online etc.

Para você, qual o papel da mulher na ciência? Como elas são enxergadas na sociedade e também nesse ambiente?

Nesse sentido, acho que uma das dificuldades das mulheres é principalmente quando vamos conversar com investidores homens. A impressão que fica é que sofremos uma espécie de pré-julgamento, como se a gente não conhecesse do assunto. O sentimento é de que eles acham que entendem mais do assunto do que nós. A impressão, pelo tom da conversa, é o de querer ensinar as coisas para nós. Mas isso tem mudado bastante e nós estamos nos impondo mais, com outro tom.

Como você vê respectivamente a medicina e a importância da ciência (pesquisa científica) no cenário atual?

Em relação às perspectivas por parte da biomedicina na área da saúde, por exemplo com a covid-19, é a dependência que temos atualmente das empresas internacionais, principalmente quando falamos das vacinas. Além disso, ao observarmos o contexto geral da biotecnologia, todos os insumos e equipamentos têm forte influência dos players de fora do país. Inclusive a própria Imunotera fez um lote piloto da vacina na China porque a gente não tem opção de fazer aqui no Brasil, não existe essa opção.

Como você enxerga essa dependência do mercado brasileiro em relação ao internacional?

Com a pandemia, a percepção em relação a essa dependência do mercado internacional começou a ficar mais visível. Não é só fazer a transferência de tecnologia, é preciso também criar, ser o responsável por desenvolver a tecnologia.

Quais são os planos futuros para a ImunoTera?

Um dos objetivos da ImunoTera, agora que recebemos o Prêmio Mulheres Inovadoras, é investir o dinheiro em um projeto em parceria com o Embrapi, Sebrae e Senai para fazer o nosso lote piloto. Queremos começar a estudar e viabilizar um projeto piloto da vacina aqui no Brasil.

Tainah Colombo Gomes, fundadora da BiotecnoScience

Tainah Gomes ainda está dando os primeiros passos na trajetória empreendedora e, atualmente, iniciou as operações da BiotechnoScience que está desenvolvendo um produto dermatológico, inicialmente, para uso cosmético e, posteriormente, para uso no reparo e remodelagem tecidual na cicatrização de feridas. “Minha startup está se iniciando agora. Conseguimos fazer a abertura, ainda em uma fase muito inicial antes mesmo do faturamento. E a pandemia impactou no processo de abertura, porque toda a burocracia ficou mais lenta. Mas como não estávamos gerando receita, não sofremos grande impacto”, comenta.

Para ela, a presença de mulheres na ciência ainda é muito mais representativa quando olhamos para o mercado empresarial. “Na área acadêmica eu consigo enxergar a presença das mulheres com mais força. Dentro da minha área, que é a das Ciências Biológicas, as mulheres ocupam  diversos tipos de cargos. Você vê mulheres pesquisadoras coordenadoras, diretoras, doutorandas, mestrandas,  graduandas e em início de iniciação científica. Na minha percepção, dentro da área acadêmica, a presença das mulheres é significativa e faz muita diferença. Não vejo esse cenário tão forte no meio empresarial.

Confira a entrevista na íntegra com a Tainah Colombo Gomes

Qual a importância da ciência em momentos como o da pandemia?

A importância da ciência nesse momento é gigantesca. Acho que mais do que nunca, apesar da humanidade ter dependido da ciência em outras pandemias, como a Peste Negra. Atualmente, com a globalização, e o nível de informação que nós recebemos, a ciência está cada vez mais importante. Afinal, há muita informação disponível em diversos canais e as pessoas acabam desacreditando do que médicos e cientistas dizem e acabam acreditando no que elas leem e veem na internet.

Como está sendo essa sua transição do meio acadêmico para o empreendedorismo à frente de uma startup?

Estou iniciando agora a minha jornada como empreendedora. Mas já tomei vários sustos, porque dentro do ambiente acadêmico é ensinado que é tudo muito tranquilo e simples. Você tem seu produto, quer desenvolvê-lo, monta sua empresa e pronto. No entanto, não é bem assim. É um caminho longo a ser percorrido, precisa de financiamento e orientação sendo uma trajetória árdua a ser percorrida. Acredito que dentro do contexto acadêmico somos um pouco iludidos sobre a realidade dos empreendedores brasileiros. São muitas perguntas e passos que temos que percorrer para chegar a solução de um problema.

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