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Aprendizados de quem já fundou, vendeu e comprou uma startup

A Trybe é uma startup focada em cursos de tecnologia/programação com o modelo de negócio baseado em empregabilidade onde o estudante começa a pagar a partir do momento que estiver trabalhando. A edtech chama atenção pela trajetória e aportes que vem recebendo e é destaque entre as startups mineiras do estudo Distrito Minas Tech Report, […]

23 de julho de 2020 6 min de leitura
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Artigo atualizado 23 de julho de 2020

A Trybe é uma startup focada em cursos de tecnologia/programação com o modelo de negócio baseado em empregabilidade onde o estudante começa a pagar a partir do momento que estiver trabalhando.

A edtech chama atenção pela trajetória e aportes que vem recebendo e é destaque entre as startups mineiras do estudo Distrito Minas Tech Report, que mapeou o ecossistema de inovação do estado. Só para você ter uma ideia já são mais de 780 startups em solo mineiro e apenas nos últimos 3 anos foram investidos mais de US$ 60 milhões nesses empreendimentos.

Entrevistamos o CEO da Trybe, Matheus Goya, para entender todas as etapas de sua trajetória que vai desde o começo como empreendedor, o exit e até a compra de uma startup. Confira!

Entrevista completa com Matheus Goyas, CEO da Trybe

App Prova

Éramos um grupo de amigos de escola, em Belo Horizonte, em 2012, pessoas de 20 a 22 anos, a maioria delas na primeira ou segunda experiência profissional, o meu background era de professor particular de matemática. Eu nem sabia o que era uma startup, os meus sócios são pessoas extremamente inteligentes, mas também estávamos todos nesse momento de vida.

Quando fizemos a primeira startup nos guiamos muito em um propósito de alcançar e ajudar muita gente no ENEM no Brasil, tínhamos uma plataforma, o AppProva que ajudava as pessoas a identificar onde elas deveriam estudar mais antes da prova acontecer, de graça, tratamos os dados de forma anonimizada e usamos para ajudar instituições de ensino a melhorar seus próprios resultados.

Aprendemos nessa trajetória, de 2012 a 2017, que a liderança tem que se guiar em GENTE, que é absolutamente tudo.

Outro ponto é a cultura forte, CULTURA é o maior diferencial competitivo que uma empresa pode construir, serve para resolver problemas que são irresolvíveis. Vão existir situações que qualquer decisão faz sentido e para ter coerência de decisão vai ser necessário se apoiar em alguma coisa. E essas coisas são os valores, a missão e a visão da empresa. A visão te ajuda a tomar decisão, qual das escolhas me faz chegar mais perto de onde eu tenho que ir. A missão te ajuda a decidir qual opção está mais vinculada ao por que esse negocio existe. Tanto a Trybe, quanto o AppProva, têm a missão de gerar oportunidade na vida das pessoas.

Se aparecer a oportunidade de usar a nossa tecnologia para ajudar a avaliar QI de chimpanzé na NASA ou na alfabetização de crianças é a missão que vai nos guiar. Os valores são o Modus Operandi de como a empresa espera que as pessoas se comportem e evita frustração. Quando procuramos pessoas para nos relacionar, profissional ou pessoal, já sabemos os valores que buscamos, a cultura é muito importante.

O terceiro ponto é que na vida vale mais ser 100% certo do que apenas 98%. Cada atalho, cada gambiarra, em qualquer nível, gera déficit e não vale a pena tomar. Fazer a coisa certa, do jeito certo, o tempo inteiro. No fim do dia o que tem mais valor na construção de uma história coletiva ou individual é a reputação.

Exit

A maior parte das transações de startups, quando acontecem vão demandar um período de convivência, que os empreendedores permaneçam por um período na empresa que está comprando, se você vai trabalhar com as pessoas que estão te adquirindo, você tem que gostar delas, então escolha bem quem vai te comprar, por que serão seus sócios. Fomos muito felizes porque fizemos uma decisão consciente de com quem estávamos nos juntando, foi bom financeiramente, mas poderia ter sido uma catástrofe se as pessoas não compartilhassem do mesmo propósito, dos valores e da forma ética de ser. Por isso GENTE continua sendo importante.

A segunda coisa foi ter uma ESTRUTURA DE CAPITAL saudável. As pessoas alocam a importância das pessoas no começo e com base nisso elas distribuem a participação societária, só que a história de uma empresa não é retratada em uma foto, mas em um filme, são vários acontecimentos ao longo da história. Eu posso ser, hoje,  a pessoa que tem a maior parte da estrutura de capital da empresa, mas posso passar 5 anos não sendo a pessoa que mais gera valor, então a pessoa que gerou mais valor deveria crescer e o meu valor deveria diminuir. Isso vai ser a melhor forma de construir CULTURA, que é feita de GENTE, quem você contrata, quem você promove, quem você demite. Como você atrai as melhores pessoas se elas não vão poder se transformar em donas do negócio?

O terceiro aprendizado é fazer BIZDEV (business development), em especial se for B2B, a melhor forma de encontrar um parceiro. A primeira coisa que muitas empresas fazem é contratar uma empresa de M&A e fazer shopping around, isso é besteira. Se você quer vender e achar o comprador certo, começa a fazer BizDev com os possíveis compradores, faça negócios. Na Somos o primeiro projeto com eles foi, vamos fazer uma joint venture com a Saraiva, depois foi fazer simulados para a educação básica para o ENEM, na época tínhamos uma ferramenta de avaliação, percebemos que os caras eram bacanas que eles queriam fazer algo diferente, eram preocupados com qualidade, querem gerar oportunidade para a vida das pessoas. Se você já fez BizDev os compradores já tiveram tempo de apreciar o valor, de conhecer a empresa e os empreendedores e estão dispostas a pagar mais. A probabilidade da transação ser bem sucedida aumenta vertiginosamente.

Trybe

Começar de novo é mais difícil por que não tem mais ignorância. Veja bem se eu tinha algum senso do que a gente estava fazendo, começar um negócio com 21 anos, de tecnologia, em Belo Horizonte, de graça, em 2012, tomando dívida, e que a gente ia vender dados para escola?

A gente se jogou em um mercado relativamente pequeno, a sorte é que o time conseguiu executar muito bem, mas quando você começa a ganhar repertório, trabalhar como executivo, você começa a dizer não para muita coisa, porque racionalmente as boas ideias são divididas em quatro tipos: As que você tem um alto nível de convicção de que vão dar certo ou que vão dar errado e do outro lado as que têm um alto nível de consenso ou não são consensuais para a grande maioria. Nas ideias que você tem um alto nível de certeza e que são não consensuais, onde as pessoas vão te chamar de louco, essas são as melhores ideias. Quando você é ingênuo, você tem muito mais capacidade de fazer coisas não consensuais, por que para você é possível. Quando já tomou porrada na vida, você se pergunta para que que eu vou fazer isso.

Outra coisa é que ninguém quer dar errado depois de dar certo. A decisão fica mais cuidadosa, por que as expectativas vão ser muito maiores, não apenas dos investidores, mas tem a responsabilidade das pessoas que confiam em você. O meu trabalho é fazer essas pessoas que trabalham comigo darem certo. A liderança tem que ter a convicção de que o time traballha para a empresa e ela trabalha para o time, essa é a lógica, trazer a estrutura de capital necessária para ter mais pessoas boas, caso contrário elas vão embora.

Outro ponto é alinhar as expectativas, tínhamos que ter uma clara conexão com todas as pessoas do coletivo fundador, uma decisão de tese unânime. Obviamente envolvido com educação, a tese foi: empregabilidade com propósito de gerar oportunidade para as pessoas, visando ser a primeira escolha na formação de profissões digitais na América Latina. Tinha que ser uma coisa que quando olhássemos para trás em 10 anos e pensasse, nós mudamos a trajetória desse continente e que tinha que resolver um problema social relevante além de emocional e econômico. A Trybe é uma empresa de 9 meses com mais de 60 milhões de reais captados, 3 rodadas de investimentos e 1 M&A. é quase uma ação relevante a cada 2 meses, é ir para o espaço ou ir para o espaço. A nossa visão não é ser a maior, é ser a melhor.

Essas duas transações que passamos, Appprova para Somos e Somos para Kroton, elas são financeiramente legais, mas são emocionalmente difíceis. Você se desfaz daquilo que você conquistou. É legal fazer, é legal vender, mas agora é longrun, sentar em cima de um negócio que é nosso e que não está a venda. Quem construiu coisas muito grandes na história, fez só uma coisa. Jezz Bezos na Amazon, Mark no Facebook, o Trio da Ambev. Não vai ser rápido, nem fácil, mas a gente quer fazer algo relevante. 

Outro ponto é que depois que você faz um negócio e da certo, é outro jogo, as pessoas querem investir, tem aquele pensamento “Essa galera entende de educação, já deu certo, se eles fizerem outra coisa, eu quero fazer junto”, mas tem que saber escolher os investidores. Investidor também é gente, não é uma máquina, é uma pessoa que representa um coletivo de capital e quando as expectativas são altas é bom que estejam bem alinhadas. Nós somos muito gratos a e.Bricks, o primeiro fundo de venture capital que investiu, nós conversamos com uns 12, e a partir daí quase todos os negócios que fizemos, eles estão de alguma forma próximos. Temos ótimos sócios e comprometidos, a Canary, Atlantic, Maya, Joa, Arminio Fraga, um coletivo de pessoas que está comprado com esse propósito. Nós estamos combinados com todos os investidores que nosso foco é qualidade, não temos pressa para crescer, não vamos vender.

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