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Transição para carreira de inovação: a trajetória de Cleo Sousa, da Leap

Transição para carreira de inovação: a trajetória de Cleo Sousa, da Leap

Inovação é uma área relativamente nova no mercado de trabalho, que surgiu impulsionada pelo avanço da indústria 4.0 e o crescimento das startups. Por isso, muitas pessoas que trabalham nesta área atualmente, começaram suas trajetórias profissionais com outras experiências. É muito comum encontrar colegas que passaram por uma transição de carreira para a área de […]

18 de março de 2021 7 min de leitura
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Artigo atualizado 18 de março de 2021

Inovação é uma área relativamente nova no mercado de trabalho, que surgiu impulsionada pelo avanço da indústria 4.0 e o crescimento das startups. Por isso, muitas pessoas que trabalham nesta área atualmente, começaram suas trajetórias profissionais com outras experiências. É muito comum encontrar colegas que passaram por uma transição de carreira para a área de inovação. 

O mais interessante desse processo, é que o conhecimento adquirido em outras áreas nunca se perde e pode ser um diferencial para esses profissionais. É o caso de Cleo Sousa, Community Hacker da Leap (KPMG). Após construir uma carreira de 9 anos na área de Hotelaria, Cleo foi atraída para a Inovação em um momento de busca por novos conhecimentos. 

Conheça sua trajetória e inspire-se com os aprendizados de Cleo ao longo dessa jornada.

Trajetória da Cleo Sousa - da hotelaria para a inovação aberta.

Criação e começo na hotelaria

Natural de Salvador, na Bahia, quando pequena, Cleo Sousa foi morar no Rio de Janeiro com a mãe. Durante o Ensino Médio, fazia o curso regular pela manhã e à tarde cursava um técnico de hospedagem. Em seu tempo livre, aproveitava para estudar, fosse durante a espera pelo transporte coletivo ou no intervalo entre os cursos. Apesar das dificuldades, Cleo fez o Enem, conseguiu uma nota boa e entrou na segunda turma de Hotelaria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

“No início foi muito difícil, porque eu não falava inglês e toda vaga pedia ao menos nível intermediário e isso me deixava muito frustrada”, relata. Durante a faculdade, Cleo chegou a fazer estágio em uma rede mundial de hotéis e fez trabalhos extras como garçonete em restaurantes e eventos de grande porte no Rio de Janeiro. Seu próximo emprego formal foi em uma consultoria hoteleira. Foi quando ela começou a estudar inglês e também sentiu necessidade de aprender espanhol.  

“Algumas vezes eu precisava usar o espanhol, além do inglês, e por isso decidi ir para um país de língua espanhola para me desenvolver. Falei com meu diretor, que era uruguaio, e ele conseguiu uma oportunidade para mim em um hotel boutique de Montevidéu.” Foi assim que Cléu foi para o Uruguai e passou sete meses trabalhando, viajando e conhecendo novas pessoas. “Foi a primeira vez que eu estava olhando para o mundo além do que eu conhecia”, conta.

Conquistas e dúvidas sobre a área

Com 22 anos, ela voltou ao Rio de Janeiro, a convite do ex-chefe, para ser maitre em um hotel de luxo. Sua equipe era composta por pessoas bem mais velhas e experientes, então para Cléo foi difícil provar que merecia estar em sua posição. 

A profissional implementou algumas dinâmicas, como momentos para a equipe provar os pratos, que fizeram o time se sentir mais unido e próximo. “A liderança que eu fui desenvolvendo era de testar e ver o que funcionava. Eles começaram a ver a importância de ouvir e validar as opções com os clientes”, explica. Sua próxima experiência foi no restaurante da apresentadora e chef Bela Gil, onde teve contato com um público mais jovem e treinou uma equipe menos experiente. 

Depois desse período, Cleo ainda voltou a trabalhar em uma rede de hotéis, mas começou a sentir que não tinha espaço para desenvolvimento. Assim, ela pediu demissão e passou por uma fase difícil. “Eu morava sozinha desde os 17 anos e com 26 tive que voltar a morar com a minha mãe. Parecia que eu estava voltando várias casas na vida e na profissão”, relembra. 

Cleo construiu uma carreira na área de hotelaria e migrou para Inovação em 2019

Foi quando Cleo decidiu viajar para São Paulo e ficou na casa de seus tios. Com a necessidade de ajudar com as contas, começou a fazer extras em hotéis da capital paulista. “Voltei para as funções de base e comecei a perceber como as pessoas te tratam diferente. Comecei a entrar em crise de novo. Tive burnout, por sentir como se não soubesse fazer outra coisa e sem espaço para colocar minhas ideias em ação e sair um pouco apenas do operacional.”

Nesse momento, Cleo sentiu a necessidade de encontrar outra coisa na qual poderia se desenvolver. Ela começou a listar coisas das quais gostava e que gostaria de aprender, dentre elas a tecnologia. “Uma coisa que me incomodava na hotelaria, é que eu achava ser um espaço muito rico, de muita troca, mas nada era feito com aquelas informações. Durante algumas pesquisas, me deparei com o conceito de Big Data e meu entendimento foi de que era justamente a forma como lidar com aquele volume de dados e promover ações a partir disso”, explica.

Transição para Inovação 

Para conhecer mais sobre a área, Cleo começou a participar de vários eventos em tecnologia que aconteciam em São Paulo. “Logo eu estava em 30 grupos de eventos no whatsapp, acompanhando e participando muito. Eu chamava as pessoas que estavam organizando e me oferecia para ajudar”, relembra. Foi assim que ela se envolveu na organização da edição 2019 do maior hackathon do mundo, o Nasa Space Apps.

Em dezembro de 2018, Cleo se candidatou para uma vaga de trainee na KPMG. “Achei que não iria dar certo, por ser uma empresa de consultoria, super focada em números. Só que eu passei, então meu pensamento foi o seguinte: se eu consegui pedir demissão depois de 9 anos de hotelaria, vai ser moleza se eu tiver que sair de uma empresa que eu acabei de entrar.”

Após o primeiro mês de onboarding, Cleo foi alocada na Leap, que é onde atua hoje. “Me falaram que a Leap é a área de inovação aberta da KPMG e eu fiquei ainda mais perdida, mas fui com o coração aberto”, brinca. Ela conta que, no início, participava de reuniões e não entendia alguns bordões. “O ambiente de inovação tem uma linguagem muito própria, que era muito distante da minha realidade até aquele momento. Comecei a estudar muito, ler livros, perguntar para as pessoas.”

O ano de 2019 foi de muito aprendizado para Cleo, que participou de eventos como o Nasa Space Apps Challenge São Paulo, Startup Weekend Fintech e São Paulo Tech Week. “Como trainee na Leap, eu sempre pedia para participar de tudo e o legal é que eu acabava envolvendo outras pessoas também. Isso tudo foi abrindo a minha mente, e assim fui me envolvendo e me desenvolvendo no ecossistema de inovação.”

Essa capacidade de se conectar com o ecossistema fez a profissional se destacar e ser convidada a trabalhar com a estratégia de posicionamento da empresa. “Eu acho que eu tive um desenvolvimento acelerado, principalmente pela minha capacidade de conexão com as pessoas, mas eu sempre vou ser uma aprendiz na carreira de inovação.” Nesse processo, segundo Cleo, foi essencial estar em uma equipe com diálogo aberto e que apoia a vulnerabilidade.

Hoje, Cleo faz um panorama sobre sua transição de carreira para a área de inovação: “Estou nisso só há dois anos. Tem sido uma carreira super acelerada, super conectada. É tudo sobre conexão com pessoas, ser atento ao outro, ter uma escuta ativa, e eu tenho certeza que essas minhas soft skills vieram da hotelaria”, afirma.  

Depoimento da Cléo Sousa sobre sua transição transição para carreira de inovação.

Diversidade

Como mulher negra e homossexual, Cleo ainda exerga um longo caminho para que o mercado de Inovação seja realmente diverso. “A questão da diversidade me afetou bastante, mas me mantive firme. Na turma de 32 trainees que entraram comigo, eu era a única pessoa negra, então eu duvidei muito se aquele era o meu lugar e pensei em voltar para a hotelaria, que era minha zona de conforto”, confessa.

Ela conta que na hotelaria essa disparidade não é tão grande, por ser um mercado que absorve pessoas de diferentes origens, por isso ela nunca tinha parado para pensar na importância de um ambiente com diversidade. “Eu não quero que ninguém se sinta como eu me senti, se questionando se deveria estar naquele espaço. E isso você alcança quando começa a trazer pessoas diversas para o ambiente de trabalho, para serem referências”, reflete. Para ajudar a mudar essa realidade, ela se envolve em grupos e eventos que buscam dar visibilidade para o assunto. 

“O mundo está cheio de oportunidades. Há dois anos e meio eu estava triste achando que não chegaria a lugar algum na hotelaria e que continuaria infeliz nesse meio. Eu nunca imaginei estar onde estou agora. Só Deus sabe o que vai acontecer na minha vida daqui há três anos e eu aprendi a ficar confortável com isso. Está tudo bem, eu estou me desenvolvendo e estou fomentando como posso para fazer com que outras pessoas se enxerguem nesse ambiente corporativo”, conclui.

Entrevista

1. Como mudar o cenário da diversidade racial no mercado da inovação? 

Diversidade tem que vir junto com inclusão. Isso está mudando, ainda que a passos lentos. Se inovação é sobre pessoas, deveríamos estar preocupados em responder a questão “Como poderíamos trabalhar juntos?”, realmente considerando as pessoas dentro do processo, todas as pessoas. Uma empresa que está procurando diversidade, não pode recrutar somente pelo LinkedIn, isso não faz sentido.

Hoje, eu faço parte do Ebony, que é o pilar de ações afirmativas para pessoas negras dentro da KPMG. Estou como curadora da São Paulo Tech Week, na frente de diversidade. Sou voluntária dentro do Silicon Drink About e ano passado promovi um evento para falar sobre diversidade racial. Toda vez que eu tenho a oportunidade de promover uma ação nesse sentido, eu faço. 

Com certeza sou só um grão de areia em meio a um mar de coisas que precisam ser feitas, mas é assim que eu tento trazer para perto pessoas que são como eu. Eu já ouvi pessoas falando que eu sou inspiração para elas e eu fico até emocionada, porque eu sou apenas uma pessoa tentando me encontrar.

2. Na sua opinião, quais as competências necessárias para quem deseja atuar nessa área?

Nós lidamos muito com tecnologia, mas às vezes esquecemos que, antes de tudo, precisamos trabalhar com o ser humano. Então saber lidar com pessoas é essencial. Mesmo que a gente venha a automatizar tudo, no final das contas sempre vai ter um humano por trás. Também destaco a importância de saber colaborar. Eu acredito que a principal pergunta é: como nós, enquanto pessoas, deveríamos trabalhar juntos? A tecnologia é somente um meio de ajudar na colaboração.

Recomendação de leitura da Cleo:

As fantásticas competências digitais e onde habitam

3. O que você aconselharia para mulheres que pretendem trabalhar na área de inovação?

Não desista! Esse ainda é um ambiente predominantemente dominado por homens, o próprio Female Founders Report 2021 comprova esse cenário, mas não tenha medo de mostrar suas ideias, de expressar sua opinião. Seja autêntica, busque estudar, para estar sempre embasada (e isso para qualquer pessoa, não somente mulheres). Busque a conexão com outras mulheres para fortalecer essa rede. É muito sobre ser você mesma e se conectar, esse é o grande segredo. 

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