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Empreendedoras criam absorventes biodegradáveis

Empreendedoras criam absorventes biodegradáveis

Conversamos com Clara Kottas e Isabelle Parik, fundadoras da Startup Nua, com foco em absorventes biodegradáveis. 

24 de agosto de 2022 6 min de leitura
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Artigo atualizado 24 de agosto de 2022

Conversamos com Clara Kottas e Isabelle Parik, fundadoras da Startup Nua, com foco em absorventes biodegradáveis. 

A Startup Nua é uma empresa com foco na produção de absorventes biodegradáveis, que sejam bons para o planeta e para pessoas menstruantes. 

Os absorventes da startup são feitos de fibra de bambu, que é cultivada sem pesticidas tóxicos e sintéticos e usa métodos de cultivo sustentáveis. Quando descartados, se decompõe em até 6 meses – 1200x mais rápido que absorventes comuns.

Além disso, a empresa oferece um serviço de assinatura, que entrega na casa de seus clientes a quantidade necessária de absorventes para cada ciclo menstrual, mensalmente.  

Conversamos com Clara Kottas e Isabelle Parik, fundadoras da Startup Nua. Confira!

Como a Nua começou?

Como vocês começaram? Qual a dor de mercado que vocês identificaram? Tiveram algum modelo inspirador?

Eu, Clara, sou formada em direito, tive experiências com direito empresarial e M&A que me trouxeram bagagem e despertaram o interesse em empreender, já a Isabelle que se formou em administração com um foco voltado para marketing e teve experiências com pesquisa, consumer insights e tendências. 

Acreditamos que tínhamos perfis bastante complementares para encarar o desafio de empreender e já estávamos conversando da possibilidade de fundar uma empresa antes mesmo de surgir a ideia da Nua. A Isabelle estava trabalhando no Reino Unido em 2019 e lá ela teve o primeiro contato com os absorventes orgânicos descartáveis, acabou gostando muito do produto e começou a refletir sobre o motivo de não existir isso no Brasil.

No final de 2019 decidimos empreender juntas e no começo de 2020 iniciamos a abertura do CNPJ e questões burocráticas para formalizar e operacionalizar a empresa. Devido ao produto necessitar de regulação da Anvisa, tivemos que retirar várias licenças, possuir um escritório antes de abrir o CNPJ, entre outros passos até chegar em maio de 2022 que foi quando os nossos produtos passaram a ser vendidos. 

Estes dois anos de espera foram um período em que aproveitamos para lapidar a nossa ideia, estudamos e nos inspiramos em modelos de referência no exterior. Duas empresas em especial tinham tanto uma visão de posicionamento que gostávamos quanto um modelo de negócio similar. 

A primeira é a Lola que tem um portfólio de produtos para toda a saúde reprodutiva das mulheres incluindo cuidado menstrual e sexual. Nossa outra inspiração principal foi a This is L que foi adquirida pela P&G, sendo uma marca transparente que tem um forte foco social. Entretanto, também nos inspiramos em outras marcas adaptando para o mercado brasileiro até chegar nos atributos da Nua.

De forma geral, os absorventes comuns são péssimos para a saúde e o planeta, mas são bons pensando na praticidade, testamos calcinhas menstruais, coletores e produtos correlatos, porém nunca foram produtos que se adaptaram a nossa rotina de trabalhar o dia inteiro, no caso do coletor por exemplo é difícil remover e lavar adequadamente estando fora de casa no dia a dia. 

Acreditamos que encontramos uma dor latente, uma indústria escassa em inovação e dominada por players tradicionais. Nós conversamos principalmente com as novas gerações que valorizam uma experiência de compra personalizada e sustentabilidade como um todo já que nasceram em um contexto de emergência para soluções mais ecológicas. 

O mercado também é bastante relevante em termos de tamanho, cerca de 30% da população brasileira, aproximadamente 70 milhões de pessoas, menstruam.

Como a solução foi desenvolvida?

Qual o tipo de tecnologia que vocês desenvolveram e como isso foi feito? Como funciona a personalização e o modelo de assinatura de vocês?

Somos uma Femtech D2C de bem-estar menstrual. Nosso primeiro produto é o absorvente descartável, biodegradável e orgânico, mas temos intenção de expandir para outros produtos como para cólica ou absorventes internos. 

Optamos por focar no produto externo primeiro porque cerca de 80% do público no Brasil usa o externo, tem relação com o conservadorismo de colocar algo dentro do corpo. Além do mais, gostamos de enfatizar que somos uma marca para menstruantes, nem todas as mulheres menstruam e nem todos que menstruam são mulheres.

Os absorventes descartáveis comuns demoram muito para se decompor e o nosso se decompõem em até 6 meses e são compostáveis

O absorvente é construído com fibras de bambu e não possui plásticos. Optamos pela fibra de bambu no lugar de algodão orgânico, pois no Brasil o público está acostumado com absorventes mais grossos e a fibra de bambu passa melhor a sensação de que vai absorver.

Absorventes biodegradáveis por demanda e por assinatura

Cada menstruante tem uma experiência diferente com a menstruação e as opções de compra de pacotes de absorventes tradicionais são bastante rígidas, por isso nosso modelo de negócio é personalizável e por assinatura. 

Temos opções fáceis de escolher com pacotes de número de absorventes determinados, mas o cliente tem a alternativa de mexer na quantidade que vem no pacote. 

Com relação a assinatura entendemos que fazia sentido por ser uma atividade recorrente sendo mais fácil a aceitação do público, excluindo situações como gravidez e outras questões que impedem a menstruação em determinados meses.

Além disso, se você está comprando com a gente, você também está doando nossos absorventes para o projeto Luna que foca no combate a pobreza menstrual no Brasil. Pois além de ser nosso ativismo, entendemos que outras soluções reutilizáveis são complexas para mulheres em situação de vulnerabilidade que podem não ter acesso à formas de higienizar corretamente os produtos, tornando o absorvente descartável mais seguro, sem perder a sustentabilidade e preservando a saúde da mulher. 

Dificuldades e aprendizados

Quais foram as principais dificuldades que vocês enfrentaram e enfrentam?

Enfrentamos algumas dificuldades por sermos uma marca nova, com um produto novo, um conceito novo, dentro de um mercado que ainda existe muito tabu.

Como estratégia, isso se reflete na opção de compra única sem fazer vínculo mensal no site para quebrar um pouco a barreira inicial, por enquanto estamos com boas taxas de conversão do cliente que faz a compra única e opta por migrar para a assinatura. 

Além disso, como marca temos um viés muito educativo falando sobre o produto e tentando abordar problemas de forma genuína com informações sobre o corpo e a saúde como um todo. Nesse período de dois anos em que foi preciso correr atrás da parte regulatória da empresa, também criamos a nossa página no instagram e alimentamos de conteúdo para a comunidade, sem explorar de maneira comercial aproveitando para fazer testes e pesquisas. 

Buscamos também ter um viés social muito forte e, desde o primeiro mês de operação, nós temos uma parceria com o projeto Luna encaminhando doações de absorventes revertendo parte das vendas para o combate da pobreza menstrual. 

O problema de produtos sustentáveis que são reutilizáveis é a falta de acesso muitas vezes a água potável o que impossibilita a lavagem adequada criando riscos para a saúde, por isso acreditamos que para atingir esses públicos de modo adequado o ideal sejam as opções que são descartáveis porém mais ecológicas como a nossa.

Sobre sermos mulheres jovens empreendendo, enfrentamos algumas dificuldades com fornecedores que não queriam adaptar a produção para fabricar nosso produto porque acreditavam que nós não sabíamos o que estávamos fazendo, ouvimos de nossos conhecidos não entender porque decidimos empreender com o mercado de menstruação e largar “carreiras consolidadas”. 

Ainda não buscamos investimento, estamos começando agora a ir atrás disso, por isso não ouvimos nenhum comentário dessa natureza nessa parte do processo. 

Por outro lado, tem sido uma incrível jornada de aprendizado, conhecemos muitas mulheres empreendedoras incríveis nesse curto período e esperamos conhecer muito mais ao longo do tempo, queremos ser parte de um movimento de união com outras empreendedoras sendo colaborativas para criar um mercado maior e mais forte, isso tem sido muito importante para a Nua, mas também para nós como empreendedoras.

Tendências para as femtechs

Olhando para o futuro no nicho de vocês, vocês enxergam alguma tendência para os próximos anos que deveríamos ficar de olho?

Temos a visão de ser uma marca que estará presente em todas as fases da saúde reprodutiva da mulher através de nossos produtos e serviços, sejam digitais ou físicos. Acreditamos firmemente nisso como tendência geral das empresas desse ramo. 

Cuidados com o bem estar de um público mais preocupado com a própria saúde também estarão em foco, foi algo que cresceu com a pandemia, mas deve continuar expandindo e ainda queremos entender como a Nua irá se encaixar nesse contexto. 

Sustentabilidade de forma geral também é uma tendência forte e em vista de tudo que falamos anteriormente nosso produto já está bastante alinhado com este ponto. 

Além disso, educação é um outro ponto relevante, comentamos um pouco da nossa atuação educativa, mas vemos muito uma educação aliada com entretenimento, sem perder a seriedade. 

Vemos que deve chegar muito forte no Brasil nos próximos anos uma discussão do Tampon Tech e como marca nós iremos nos posicionar. Basicamente, essa discussão tem relação com o debate das diferenças de tributação de produtos para as mulheres e para homens. 

[citação] Enquanto um absorvente é taxado como um produto de luxo com uma alíquota próxima de 34%, um preservativo masculino é taxado em cerca de 18% sendo que ele é distribuído gratuitamente pelo SUS. Já houveram algumas leis e projetos que entraram em prática aqui no país visando melhorar esse cenário, mas ainda estamos distantes do ideal. 

Por fim, uma tendência mais geral do mercado de startups é o foco em crescimento a qualquer custo com queima de caixa desenfreado não funcionar mais, o critério para seleção de empresas na hora de receber investimento tem mudado e a forma como as próprias startups estão olhando a maneira de gerenciar seu crescimento também está se transformando.


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